sexta-feira, 28 de março de 2014

Esfinge



ESFINGE

Se quiser me conhecer, leia-me...
Mas não procure nas palavras explícitas,
aquelas  esparramadas sobre o papel.
Tampouco naquelas extensas, coerentes...
Não me encontrará no óbvio.
Remexa nos detalhes, nas gavetas das ideias.
Busca-me naquele verso torto, nas rimas desencontradas,
no emaranhado das letras...
Sou aquilo que se esconde na encosta das palavras,
que desliza entre as linhas, brota do  ventre da metáfora.
Aquilo que sopra sutilmente da intenção.
Estou espremida entre a vírgula e o ponto final,
disfarçada nas dobras do parágrafo,
quem sabe  nas reticências...
Não me leia como se fosse um jornal, cuja notícia vem
estampada em manchete.
Leia-me como se estivesse num bar, preparando-se para um trago.
Não leia com os olhos; antes, com o paladar.
Sorva-me com o olhar...
Sinta-me escorrer pela garganta da retina.
Se ao final do trago, seu paladar continuar insosso,
sua alma espreguiçada na indiferença; se sua curiosidade
não foi aguçada, creia-me...
Eu não fui decifrada.

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