PALAVRAS SINGULARES

São palavras jeitosas, formosas, inteiras.

Sem sentido, sem juízo, sem valor.

Faceiras, brejeiras, até corriqueiras.

Palavras intensas, carentes ou contentes.

Indecentes, inocentes, contingentes.

Trazem riso, pouco siso, alegoria.

Palavras de fé, de magia, de folia.

Fazem chorar, descontrolar e lamuriar.

Falam de amores, de dissabores,

exaltam as dores.

Palavras alegres, cintilantes, efusivas.

Verdadeiras, sorrateiras, benzedeiras.

Palavras que excitam, incitam, ousam sonhar.

Assim como falam, se calam.

Suplicam, replicam, explicam.

Palavras perdidas, inventadas...

De enfeite, deleite, um falsete.

Palavras tão belas, palavras de fera.

São palavras singulares,

São palavras de mim.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012



ESCREVINHAR

Minha poesia é pura catarse
Meus versos plebeus não têm ambição
Brindo a alegria, celebro a vida, recito amores
Pecados e dores em revelação

Eu não tenho a primazia
Nem talento rebuscado
Minha fonte é o sentimento
Súbito, inesperado, a coisa do momento

Palavras sem ordem nem exatidão
Cálidas rimas versejando sem pudores
Segredos inconfessos  do insensato coração

Nos caminhos da vida sigo a escrevinhar
Nas linhas do tempo aprendendo a conjugar
O mágico e inefável verbo, poetizar

(Betty Lucchesi)











sábado, 25 de fevereiro de 2012

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LAMENTO 
Betty Lucchesi


No silêncio da noite sombria
Nesse vazio em forma de breu
Meu coração segue errante
Entoando lamentos, insólito orfeu
  
Sinto pena do amor maltratado
Afogado  em um mar de tormenta
Agonizando de tanta saudade
Que a avidez dessa dor alimenta

 Sinto pena de você
Sempre tão indiferente
Da aridez de teu coração
Pena de sua alma vadia
Encarcerada na solidão

Me dá pena sua mesquinhez
Da verdade que tenta esconder
Pena da sua covardia
Do egoísmo marcado pela estupidez

Sinto pena, muita pena
Dessa pena que você me dá

Sinto pena do medo que brilha no olhar
Da amargura do pranto contido
Da ilusão confiscada pela insensatez
Do amor que se foi sem nunca ter sido

Sinto pena de minh`alma cativa
Embalada nessa elegia
Que de tanto penar amiúde
Sucumbiu na melancolia

Sinto pena do sonho perdido
Arrastado nas asas do vento
Muita pena da vida que manca
No compasso arrastado do tempo

Tenho pena da alegria esquecida
Da tristeza que roubou-me a quimera
Tenho pena de tanto sofrimento
Das mazelas do destino
Que com tanto desatino
Acabou por transformar
A poesia em lamento






quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

  AO VENTO 
(Florbela Espanca)
 
O vento passa a rir, torna a passar,
Em gargalhadas ásperas de demente;
E esta minh'alma trágica e doente
Não sabe se há-de rir, se há-de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,

Vento que ris de mim, sempre a troçar,
Vento que ris do mundo e do amar,
A tua voz tortura toda a gente!...

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!

Desabafa essa dor a sós comigo,
E não rias assim!...Ó vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário

Do nosso peito ser como um Calvário,
E a gente andar a rir pla vida fora!!...



domingo, 19 de fevereiro de 2012

CRÔNICA: MORRER DE (SEM) AMOR.
(Betty Lucchesi)


Um belo dia acordou especialmente feliz. Olhou em volta e percebeu que o mundo estava mais bonito. O sol mais brilhante, os pássaros mais melodiosos, as flores mais perfumadas, as pessoas mais sorridentes e ao olhar-se no espelho viu, estampada em seu rosto, a imagem do amor!
Sim, era o amor que enfim chegara, com sua beleza, com seu esplendor, com sua energia e seu encanto. O amor, tão esperado, tão sonhado, cantado em versos e prosas estava ali, dentro de si. E o mundo se fez seu.
E entregou-se àquele amor sem medos, sem pudores, sem ressalvas. Profundamente, intensamente, exatamente como o amor pede para ser amado: em toda a sua plenitude.
Cantou, dançou, gargalhou. Planejou, fantasiou, extasiou-se.  
Era a vida, pulsante, vibrante, generosa brotando dentro de si com a força que só o amor proporciona. E viveu.
E quando o mundo parecia seu, quando era dona da situação, sentiu uma dor aguda. Estancou e ouviu uma voz gelada sussurrando ao longe: acabou-se. De repente o sol foi encoberto por uma nuvem cinza, carregada e um tremor percorreu seu corpo inteiro. Olhou em volta e nada viu. Só uma dor inexplicável consumindo suas entranhas. Um pranto desesperado, angustiado brotou incontrolavelmente. Estava no meio de um turbilhão agitado, que tirava seu fôlego e minava suas forças. O pior era aquela ignorância, sem explicações, sem motivos e sem consolo.
Só o barulho ensurdecer do silêncio que furava seus tímpanos e estrangulava seu peito.
Até que a verdade açoitou-lhe a face como um chicote impiedoso: vivera uma mentira.  Amara sozinha, estivera sozinha, fora usada e descartada. Sonhara um sonho só seu. O resto, foi ilusão.
Desde então, tudo se perdera: o amor, a paixão, os sonhos, a esperança, a beleza e a poesia. Só restara angústia, tristeza e solidão.
Mergulhara em um abismo profundo, escuro e gelado. Os dias se arrastavam insípidos e sombrios. Definhava lentamente. Já não chorava, pois o pranto secou.
Então, em um desses dias sombrios e frios, ela chegou. Marcada pelo peso de sua missão, silenciosa, indelével, misteriosa, tão certa como talvez a única coisa nesse mundo dos mortais.
Ela a olhou e disse: - você demorou, ao que a outra com um olhar cansado, respondeu: - não minha querida, cheguei exatamente na hora certa, determinada. Tu é que desejou antecipar-me a chegada. Estás pronta?
-Estou cansada, muito cansada. Não sei se tenho forças para acompanhá-la.
- Não te preocupes. Trouxe comigo mensageiros que foram enviados para auxiliá-la nessa viagem. Eles te carregarão no colo. Relaxe.
- Antes de partirmos, diga-me: como alguém pode morrer de amor?
Fez-se um silêncio interminável, até que a visitante retrucou:
- Engana-se amiga; não se morre de amor, mas pela falta dele. O amor não mata, ao contrário, o amor é a própria vida. Os homens é que o matam a cada dia, com seu egoísmo, sua indiferença, sua maldade; com seu desprezo, sua deslealdade, suas mentiras e sua estupidez.
- Mas eu não matei o meu amor! Por que estou morrendo?
Tão calmamente como chegou, e de modo definitivo, a outra respondeu:
- Mataste sim, o teu amor próprio. Ao amar o outro mais que a si mesma, acabaste por cometer suicídio.
Vamos?


As Sem - Razões do Amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
E nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
E com amor não se paga.
Amor é dado de graça
É semeado no vento,
Na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
E a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
Bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
Não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
Feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
E da morte vencedor,
Por mais que o matem (e matam)
A cada instante de amor.
(Drummond)










































quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

OS POEMAS

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…

(Mário Quintana)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

“O medo é uma dor ou uma agitação produzida pela perspectiva de um mal futuro, que seja capaz de produzir morte ou dor”
(Aristóteles em Retórica)
  
MIEDO
(Lenine)

 Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de acender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como um laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar

Tenho medo de parar e medo de avançar
Tenho medo de amarrar e medo de quebrar
Tenho medo de exigir e medo de deixar
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma sombra que o temor não desvia
O medo é uma armadilha que pegou o amor
O medo é uma chave, que apagou a vida
O medo é uma brecha que fez crescer a dor

Medo de olhar no fundo
Medo de dobrar a esquina
Medo de ficar no escuro
De passar em branco, de cruzar a linha
Medo de se achar sozinho
De perder a rédea, a pose e o prumo
Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo

Medo estampado na cara ou escondido no porão
O medo circulando nas veias
Ou em rota de colisão
O medo é do Deus ou do demo
É ordem ou é confusão
O medo é medonho, o medo domina
O medo é a medida da indecisão

Medo de fechar a cara
Medo de encarar
Medo de calar a boca
Medo de escutar
Medo de passar a perna
Medo de cair
Medo de fazer de conta
Medo de dormir
Medo de se arrepender
Medo de deixar por fazer
Medo de se amargurar pelo que não se fez
Medo de perder a vez

Medo de fugir da raia na hora H
Medo de morrer na praia depois de beber o mar
Medo... que dá medo do medo que dá
Medo... que dá medo do medo que dá














quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

   SONETO A QUATRO MÃOS
 
Tudo de amor que existe em mim foi dado
Tudo que fala em mim de amor foi dito
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado

Tão fácil para amar fiquei proscrito
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse

Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano

Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano
.
 
(Vinicius de Mores)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

 TODO SENTIMENTO
  
Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.

Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente...
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.

Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.

(Chico Buarque/Cristóvão Bastos)


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domingo, 5 de fevereiro de 2012

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"Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.
Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora."
(Álvaro de Campos)










sábado, 4 de fevereiro de 2012

 
SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

(Vinicius de Moraes)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012


 
O ANÚNCIO DO POEMA
 
A minha dor além de mim me espera,
emboscada na curva do caminho;
tem encantos de rosa, sendo o espinho
que meu corpo e minh’alma dilacera;

talvez quando chegar a primavera
a dor invente o amor, pinte um carinho,
transformando o refúgio onde me aninho
no castelo encantado da quimera;

e a dor navega o mar onde navego
por terra e gente, madrugada e noite,
sempre comigo; a minha dor carrego

para animar o mundo que componho
e ver liberto do alçapão da noite
(já feito poema) o pássaro do sonho.
 
(Colombo de Sousa)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

RIFA

Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque
que insiste em pregar peças no seu usuário.

Rifa-se um coração
que na realidade está um pouco usado, meio  calejado,
muito machucado e que teima em alimentar sonhos
e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia estava certo quando
escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu
espero...".
Um idealista... 
Um verdadeiro sonhador...

Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato
que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida
que vive procurando relações e emoções verdadeiras.

Rifa-se um coração
que insiste em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.

Rifa-se este desequilibrado emocional
que abre sorrisos tão largos
que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.

Um órgão abestado
indicado apenas para quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
matando o tempo,
defendendo-se das emoções.

Rifa-se um coração
tão inocente que se mostra sem armaduras
e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro
na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir.
Eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer
e se recusa a envelhecer"

Rifa-se um coração,
ou mesmo troca-se por outro
que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.

Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.

Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos
que mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
 mas vez por outra, constrange o corpo que o domina.

Um velho coração
que convence seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a
petulância de se aventurar como poeta

(Clarice Lispector)